07/07/2026
Encontrar trabalhadores tornou-se um dos maiores desafios enfrentados pelas empresas brasileiras. O problema, que antes se concentrava em segmentos altamente especializados, hoje atinge desde funções técnicas até ocupações operacionais, como atendentes, auxiliares de produção, motoristas, pedreiros, serventes, vendedores, caixas, garçons, cozinheiros, auxiliares de limpeza e trabalhadores da construção civil.
Levantamentos recentes mostram que a escassez de mão de obra deixou de ser uma percepção isolada dos empresários para se tornar um fenômeno nacional. Pesquisa do FGV IBRE revela que 62,3% das empresas brasileiras afirmam ter dificuldade para contratar ou reter trabalhadores, percentual superior ao registrado no ano anterior. Na construção civil, o problema é ainda mais intenso, alcançando 69,1% das empresas. Outro levantamento, realizado pelo ManpowerGroup, indica um cenário ainda mais preocupante: 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldades para preencher vagas, índice acima da média mundial, de 72%.
Não falta apenas qualificação
Embora a falta de qualificação seja um fator importante em determinadas áreas, especialistas afirmam que ela está longe de explicar sozinha o problema. A combinação de desemprego em níveis historicamente baixos, envelhecimento da população, redução da entrada de jovens no mercado e mudanças nas expectativas das novas gerações alterou profundamente a relação entre trabalhadores e empresas. Hoje, muitos profissionais não analisam apenas o salário antes de aceitar uma vaga.
Benefícios, ambiente de trabalho, possibilidades de crescimento e, principalmente, qualidade de vida passaram a ter peso decisivo. É justamente nesse ponto que cresce o debate sobre jornadas exaustivas, especialmente nos setores que ainda adotam a escala 6x1.
Embora não exista um estudo que estabeleça uma relação direta e exclusiva entre a escala 6x1 e a escassez de trabalhadores, especialistas em mercado de trabalho apontam que jornadas longas, poucas folgas e dificuldades para conciliar vida pessoal e profissional reduzem a atratividade de muitas ocupações, principalmente entre os jovens.
Setores com maior dificuldade
A escassez de trabalhadores é percebida em praticamente toda a economia, mas alguns segmentos enfrentam situação mais crítica. Entre as atividades de menor exigência de escolaridade ou qualificação técnica, destacam-se: comércio varejista (operadores de caixa, vendedores, estoquistas e repositores); supermercados; bares e restaurantes (garçons, cozinheiros e auxiliares); hotelaria; limpeza e conservação; transporte e logística (motoristas, conferentes e auxiliares); construção civil (pedreiros, serventes, carpinteiros, armadores e pintores); indústria de transformação (operadores de produção); serviços gerais e manutenção.
Nos segmentos mais qualificados, também cresce a falta de profissionais nas áreas de tecnologia da informação, inteligência artificial, engenharia, saúde e funções técnicas especializadas.
Empresas já mudam suas estratégias
A dificuldade de contratação tem levado muitas empresas a rever políticas de recursos humanos. Segundo a FGV, as respostas mais frequentes incluem aumento de salários, ampliação dos benefícios, flexibilização de horários, investimento em treinamento interno, retenção de funcionários e aceleração da automação de processos. Em muitos casos, a escassez de mão de obra também provoca aumento de custos e limita a expansão das empresas.
No setor de serviços, estudo da FecomércioSP aponta que a competição por trabalhadores tornou-se um dos principais desafios das empresas, pressionando a retenção de profissionais e exigindo mudanças na gestão de pessoas.
Um novo mundo do trabalho
Especialistas avaliam que o mercado vive uma mudança estrutural: se no passado a oferta abundante de mão de obra permitia que muitas empresas mantivessem jornadas extensas e baixos salários, hoje a realidade é diferente. Trabalhadores passaram a comparar oportunidades, migrar entre setores e priorizar empregos que ofereçam maior equilíbrio entre trabalho, descanso e vida familiar.
Nesse contexto, ganha força o debate sobre a redução da jornada semanal e o fim da escala 6x1. Defensores da mudança argumentam que jornadas mais equilibradas podem tornar diversas profissões novamente atrativas, reduzir a rotatividade, melhorar a saúde física e mental dos trabalhadores e aumentar a produtividade.
Embora a escassez de mão de obra resulte de uma combinação de fatores demográficos, econômicos e sociais, cresce o consenso entre pesquisadores e entidades empresariais de que a capacidade de atrair profissionais dependerá cada vez mais não apenas do salário oferecido, mas também da qualidade das condições de trabalho.
UGT - União Geral dos Trabalhadores