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ARTIGOS

Gelson Santana
Presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre (STICC) e Secretário Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e em Montagem Industrial UGT


SÓ TERMINA QUANDO ACABA!


09/06/2026

O que nós, trabalhadores, vivenciamos há décadas é um embate com uma parcela da elite empresarial e social que ainda não entendeu — ou não quer entender — que estamos todos do mesmo lado: o lado do desenvolvimento com inclusão e da evolução para todos.

Ao participar dos movimentos de mobilização pelo fim da escala 6x1 e acompanhar o avanço dessa pauta na Câmara dos Deputados, resgatei uma importante lembrança. Na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, nós, sindicatos de classe, articulados com as então recém-criadas centrais sindicais, promovemos grandes assembleias nos canteiros de obras para pressionar pela redução da jornada semanal de 48 para 40 horas. Uma reivindicação que, quase quarenta anos depois, continua atual.

É fundamental lembrar que a atual carga horária teve origem em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Ou seja, estamos há quase um século lutando por mais dignidade, qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Também não podemos esquecer que conquistas históricas como a licença-maternidade, o FGTS, o aviso prévio, o repouso remunerado, férias com direito a 1/3 de remuneração adicional e tantos outros direitos foram resultado da organização e da união dos trabalhadores. Na construção civil da nossa base sindical, inclusive, muitas conquistas foram além do que está garantido na legislação, fruto da mobilização coletiva e da negociação sindical. Entre elas, o desconto de apenas 3% do vale-transporte.

Precisamos continuar lutando para concretizar mais esse avanço e combater o discurso de que reduzir a jornada significa reduzir a competitividade ou que o Brasil não estaria preparado para essa mudança. Esse argumento coloca o lucro acima das pessoas e ignora evidências concretas de que melhores condições de trabalho também geram ganhos de produtividade, engajamento e qualidade de vida.

Aliás, esse mesmo discurso já foi utilizado no passado. Em 1962, quando se discutia a criação do 13º salário, um dos principais jornais do país estampou a manchete: “Considerado desastroso para o País um 13º mês de salário”. O texto afirmava que a medida teria caráter meramente eleitoreiro e geraria prejuízos econômicos. Hoje sabemos que a história mostrou exatamente o contrário. Aqui no nosso estado, em 2001, quando foi estabelecido o piso regional várias entidades patronais criticaram duramente a proposta tendo como argumento que a instituição de um salário mínimo estadual acima do valor nacional forçaria o fechamento de empresas e a demissão em massa, o que, segundo eles, “quebraria” a economia gaúcha.

Essa resistência demonstra como parte da elite econômica ainda tende a enxergar a força de trabalho apenas como um custo a ser reduzido, e não como pessoas que também têm o direito de usufruir dos frutos do desenvolvimento que ajudam a construir diariamente.

O verdadeiro desenvolvimento econômico só se sustenta quando caminha lado a lado com a justiça social. E essa não é uma visão ideológica, mas uma constatação baseada em fatos. Diversos estudos e experiências demonstram que jornadas mais equilibradas podem trazer benefícios tanto para trabalhadores quanto para empregadores e para a sociedade como um todo.

Além disso, importantes empresas brasileiras já adotam modelos mais modernos de organização do trabalho. Há empresários que defendem abertamente o fim da escala 6x1 e destacam ganhos de produtividade, retenção de talentos e melhoria do ambiente de trabalho. Existem exemplos concretos de empresas que operam com jornadas reduzidas e escalas mais humanas sem comprometer seus resultados.

No varejo, a marca de óculos Chilli Beans já conta com cerca de 280 lojas operando na escala 5X2. A Vale, maior empresa de mineração do país já utiliza a escala 5×2 e jornada de 40h para todos os seus funcionários – e não adota escala 6×1 fruto de acordo firmado em Minas Gerais com os sindicatos da sua sede. Importante destacar também a posição da CEO do Coffeelab, Isabela Raposeiras, que afirmou em audiência na Câmara dos Deputados que o fim da escala de trabalho 6×1 não vai quebrar o setor produtivo brasileiro. A empresária disse que a redução da jornada aumenta o faturamento das empresas. Ela rejeita a ideia de que o custo da mão de obra vai subir de forma descontrolada ou causar pressão na inflação. Importante registrar pois, precisamos exemplificar que temos muitos empresários, empresárias e gestores que possuem uma visão muito mais avançada sobre as relações de trabalho e produtividade.

Mesmo assim neste momento, em clima de Copa do Mundo, vale lembrar uma máxima do futebol: a partida só termina quando o juiz apita o final.

A aprovação da proposta na Câmara dos Deputados merece ser celebrada, mas representa apenas o fim do primeiro tempo. A vitória definitiva depende agora do Senado Federal. Por isso, a mobilização precisa continuar nas redes sociais, nos locais de trabalho e nas ruas, para garantir que o texto avance sem retrocessos.

Os trabalhadores da construção civil seguirão fazendo sua parte com a mesma determinação de quem ergue cidades, ajuda a construir o Rio Grande do Sul e contribui diariamente para o desenvolvimento do Brasil.

Nenhum passo atrás.

Porque a vitória só se consolida quando o Senado aprovar!

Gelson Santana

Presidente do STICC e Secretário Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e em Montagem Industrial UGT

 




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