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ARTIGOS

Enilson Simões de Moura
Vice-presidente da União Geral dos Trabalhadores


Nós, as testemunhas de 1964


06/11/2026

Foi comovente ver aquele exército de idosos, no segundo turno das eleições, dando tudo de si para lutar pela democracia e levar Lula ao quarto mandato. São pessoas que viveram a ditadura e não a queriam de volta. Ninguém lhes contou o que foi esse período, nem aprenderam sobre ele nos livros de história: aprenderam na vida. Aprenderam com a inflação mentirosa, que não corrigia os salários, impondo uma carestia nefasta aos mais vulneráveis. Aprenderam com a falta de luz e de água, cujo acesso só foi ampliado com a democracia e com programas como o “Luz para Todos”. Aprenderam que deviam ficar quietos diante das desgraças para não “sumirem” para sempre. Aprenderam, como diz Chico Buarque em “Apesar de Você”, que tinham de olhar de lado e sorrir para o chão para não serem levados de camburão. Só quem viveu aqueles dias sabe contá-los. E eles souberam. Aprenderam vendo seus filhos desaparecerem ou terem de sair do país “num rabo de foguete”.


Os mais humildes, os mais vulneráveis, chamaram essa eleição para si e disseram em alto e bom som: “Estamos na luta!”.


Vimos imagens emocionantes de idosos sendo carregados em macas, em cadeiras de rodas, alguns com paralisia. Idosos que votavam e mandavam beijos para Lula, que aparecia na urna. Muitos tinham consciência de que talvez aquela fosse a última vez que votavam, assim como foi a última vez em que a foto de Lula apareceu na cabine de votação. Sabiam que o que estavam fazendo, salvando a democracia, seria muito mais pelas novas gerações do que por eles mesmos. O que semearam foi para que outros colhessem. É preciso muito amor, amor verdadeiro, para enfrentar essa tarefa. Só quem é verdadeiramente do povo sabe o sentido desse amor.


Muitos deles não verão no que o Brasil poderá se tornar, agora que teve sua democracia garantida diante desses vampiros que queriam tomá-lo de assalto. Não quiseram que as novas gerações sentissem na pele o que é uma ditadura. Isso não foi pouca coisa. É algo que precisa ficar na história, uma história para ser contada em muitas rodas de conversa pelo Brasil profundo. Eles não tinham obrigação nenhuma, mas foram carregados em cadeiras, no colo dos netos, num esforço sobre-humano. Arriscaram a própria vida para votar, movidos por um senso patriótico verdadeiro e emocionante. São imagens que ficarão para sempre na história. Os livros contarão que, em um dia de outubro do ano de 2026, os velhinhos ajudaram decisivamente a salvar a democracia em nosso país.


Souberam colocar em seus devidos lugares esses meninos mimados que, até ontem, pediam a volta da ditadura e do AI-5. Souberam deixar muito claro que tinham nojo da ditadura, assim como dizia Ulysses Guimarães, ex-presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988. Que não queriam no poder da nação alguém comprometido em entregar nossas riquezas naturais, nosso trabalho, nosso sangue. Nossos idosos foram sábios, foram verdadeiramente heróis.


Quiseram que acreditássemos que o tempo dos nossos idosos já tinha passado. Eles não aceitaram e gritaram: “Ainda estamos aqui!”.


A lição agora precisa ser aprendida. As víboras, asseclas da ditadura, estão por aí, rastejando na lama da infâmia. Não é possível vacilar, esquecer ou normalizar a canalhice. Não podemos nos esquecer daqueles que quase nos impuseram essa ditadura e que continuam por aí, nas redações dos jornais, nas plataformas digitais e na Faria Lima.


Por nossos idosos. Por nós. Pelos mais jovens. Continuaremos essa luta.


Eles deram seu testemunho com ações. Em 2026 eles testemunharam o que foi 1964. Todos nós testemunhamos!


Enilson Simões de Moura – Alemão

Vice-Presidente Nacional da União Geral dos Trabalhadores – UGT

Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República




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